sábado, 19 de fevereiro de 2011

Entrevista com Sifu Moy Yat

Esta é uma transcrição de uma entrevista com sifu Moy Yat,concedida á revista KIAI (uma das várias edições que possuo).







A Transcendência de um Artista Marcial.



Ao longo da civilização chinesa, alguns homens se destacaram por seu conhecimento nas artes tradicionais chinesas. Todas elas auxiliavam o individuo alcançar as principais virtudes apregoadas pela humanidade, quais sejam: humildade, determinação, tranqüilidade, bondade, justiça e lealdade, dentre outras.
Essas antigas artes podiam ser separadas em duas categorias: as que o envolvimento físico era predominante, como as artes marciais e a condução de carruagens; e as que eram consideradas mais delicadas ou intelectuais, como a pintura, a Escultura, a literatura, a caligrafia, a música a Matemática.
“Principio de Ying-Yang” ensina-nos que os opostos devem coexistir, interagindo-se harmoniosamente. Da mesma forma, no passado, era considerado um verdadeiro artista aquele que dominava as artes pertencentes ás duas categorias citadas.
Grão-Mestre Moy Yat, seguindo a orientação de seu mentor, o falecido patriarca Yip Man, iniciou-se no estudo das Artes Tradicionais Chinesas, desde muito jovem. Embora seja conhecido mundialmente no campo das artes marciais, em particular o sistema Ving Tsun, ele também é um mestre da Pintura, Escultura, Literatura e Caligrafia.
Embora uma figura freqüente nas revistas especializadas em arte chinesa, afinal é consultor do Museu de História Natural de Nova York e da academia de artes chinesas, é a primeira vez apresentada ao público o seu lado pouco conhecido, cabendo esse privilégio a revista KIAI.
As vésperas de sua aposentadoria oficial, seu Kung Fu é ainda no mínimo impressionante. È incrível o poder do tempo sobre pessoas que tem se dedicado honestamente á pratica de sua arte.
Esta entrevista realizada em Nova York, é uma confirmação do que escreveu o DR. Cameron Hurst, professor de História Chinesa e Coreana da Universidade da Pensilvânia e diretor do centro para Estudos do Leste Asiático da mesma universidade: “...a devoção única a um caminho em particular era defendida largamente especialmente nos textos de artes marciais.
A idéia é que se uma pessoa dedicar exclusivamente a compreensão total de um único caminho, então paradoxalmente, seu entendimento será consistente em todos os caminhos.
Miyamoto Musashi, por exemplo, declarava que depois de anos de devoção única ao “ Heio”( artes marciais) , ele finalmente tornou-se um perito em uma variedade de “ Geido” (caminhos Artísticos), todos sem ajuda de um mestre.
Acompanhe a trajetória deste incrível mestre, o último de sua estirpe, que atribui todo seu desenvolvimento artístico á pratica da arte marcial, sua amada Arte Ving Tsun.

Como as Artes Marciais estão inseridas nas Artes tradicionais chinesas?

“As artes marciais fazem parte das chamadas Artes Tradicionais chinesas. Talvez em virtude das artes marciais conciliarem a estética com o utilizável, sendo consideradas por muitos chineses côo a mais importante das Artes Tradicionais Chinesas.
Pelo fato de meu pai ter sido um artista, permitiu que desde criança tivesse contato com as Artes Tradicionais Chinesas. Acredito que as outras artes tradicionais possibilitem que o artista marcial desenvolva uma extremamente alta sensibilidade artística, tão necessária em qualquer manifestação humana.
Ainda que durante décadas o meu foco principal tenha sido o estudo da arte do Ving Tsun, atualmente tenho dedicado as manhãs e as tardes para outras artes tradicionais, deixando apenas o período da noite para a prática da arte marcial.
Como desde jovem tenho treinado dormir pouco, sempre tenho muito tempo para dedicar-me ás artes, sem deixar de realizar outras atividades.”

No prefácio do seu livro “ A Legendo f Kung Fu Masters”, um famoso jornalista de Hong Kong deixa claro que mesmo na china poucos mestres conseguem dominar tantas excelências quanto o senhor. Como isto é possível para um mestre em pleno século XX? 

“Devido ao meu aprendizado de Ving Tsun com o Grande Patriarca YIP MAN pude aprender como administrar devidamente o tempo, o que permitiu que tivesse a oportunidade para e dedicar a outras artes tradicionais chinesas. Ving Tsun ensina dentre outras coisas a como alcançar o domínio temporal. Com isso, o praticante passa a ter tempo para dedicar-se a outras atividades de interesse. No meu caso, dediquei-me ás Artes Tradicionais Chinesas; outros praticantes de Ving Tsun dedicam-se a outras excelências da vida.
Muitos enxergam o artista marcial como um lutador, um ser embrutecido. Isto porque muitos pregam a dedicação exclusiva para sua própria arte, ignorando outros ramos de atividade. Em Ving Tsun, ensinamos a ver a arte marcial como meio de alcançar as outras artes e não um fim em si mesmo.”

Mas como sua arte, o Ving Tsun, propicia que uma pessoa comum consiga ser bem sucedido em tantas áreas do conhecimento humano? 

“ A arte do Ving Tsun ensina-nos a aprender como aprender. Acredito que o ponto mais importante é primeiro ter um bom domínio do sistema Ving Tsun. Através de seu aprendizado, o praticante de Ving Tsun aprende a realizar dois e até três movimentos ao mesmo tempo. Isto seguramente irá refletir nas atividades de seu dia-a-dia. Em meu caso, mesmo as artes ocidentais são de meu Interesse. Por exemplo, lembro-me que em Hong Kong, durante um período, aprendia de manhã a como fazer montagens de fotografias e de noite a como criar DRINKS. Ultimamente, tenho me dedicado há algum tempo á música tradicional chinesa e a Ópera Chinesa. Penso que a humildade é essencial para que pratiquemos anos a fio. Muitos pretensiosos, após algum tempo, simplesmente acreditam que são bons o suficiente para parar de praticar. Não é o meu caso. Por isso creio que devemos saber como administrar nosso tempo, visto que somente assim poderemos estar dedicando devidamente ás praticas que escolhemos durante toda a vida.”

Por favor, explique com mais detalhes como Ving Tsun pode ensinar a economizar tempo? 

“Na Antiga china, a prática das Artes Tradicionais estava relacionada com a classe social. Somente os mais privilegiados socialmente tinham disponibilidade para dedicar-se ás artes.
Por esta razão, sob determinado ponto de vista, o tempo é mais valioso que o dinheiro.
Contudo, Ving Tsun passou a ensinar as pessoas a como economizar tempo. Em outras palavras, a como ter mais disponibilidade temporal. Assim pessoas de classes menos privilegiadas como eu, puderam dedicar-se ás artes. Contudo, era preciso desdobrar e ser muito dedicado. Através do Ving Tsun , desenvolvemos a percepção para economizar tempo a cada momento. Por exemplo, nas refeições procuro comer o mais rápido possível.
As pessoas comuns poderão dizer que isto faz mal, mas se você tiver o foco mental no ato de comer, não só a comida será mais bem aproveitada pelo organismo como você poderá comer bem mais rápido que o normal. Outro exemplo, ao caminhar, procuro sempre o caminho mais curto, nunca ando em círculos. Mesmo em lugares cheios de pessoas, é importante prever a trajetória das pessoas que estão vindo em sua direção. Mais um exemplo: ao falar, procuro explicar o máximo possível com o mínimo de palavras. Escolher as palavras certas e energia em cada uma delas, aumenta o entendimento de seu pensamento e diminui a repetição das frases.
As pessoas devem compreender a natureza do tempo para se dedicarem mais ao aprendizado da vida. Por isso todo meu tempo é utilizado para que possa me aperfeiçoar.”

Atualmente o senhor é considerado um dos maiores especialistas na confecção de selos (carimbos) tradicionais chineses do mundo. Poderia explicar algo a respeito dessa arte? 

“A Arte dos selos tradicionais chineses é uma das mais difíceis de expressão, pois é preciso ter conhecimento dos ideogramas arcaicos – alguns datando de milhares de anos – e saber como escrevê-los dentro da estética adequada. Além disso, é preciso ter a habilidade de saber como esculpir os ideogramas nos selos de pedra, qualquer erro pode arruinar todo o trabalho, uma vez que é impossível fazer retoques.
Por sua dificuldade intrínseca esta arte demanda muito tempo para ser dominada. È por isso não possui muitos peritos. Como minha natureza é enfrentar desafios, identifiquei-me de imediato com essa arte.
Já se passaram quarenta anos e ainda continuo a praticar. Felizmente, hoje vários de meus alunos são muitos respeitados nesta arte, o que me leva a crer que ela ainda será preservada por muitos anos.”

Na década de 60, o senhor uniu a Arte Marcial e a Arte dos selos tradicionais ao desenvolver a famosa coleção “Ving Tsun Kuen Kuit”, supervisionada pessoalmente pelo patriarca YIP Man. Como surgiu essa idéia? 

“ Os praticantes de Ving Tsun necessitavam de ter uma fonte fidedigna sobre a história de nosso estio. A preocupação do patriarca YIP MAN era que a sabedoria ancestral pudesse se perder para sempre. Ao registrar em pedra todo esse conhecimento, o legado dos antepassados estaria garantido para se transmitido para as gerações posteriores. A história tem mostrado que muitos documentos em papel foram destruídos, perdendo-se para sempre a herança dos nossos ancestrais. E por esse motivo que a pedra representa a eternidade. Ela não pode ser queimada ou rasgada.

Na área da pintura, o senhor desenvolveu uma nova técnica monocromática que estruturou toda uma coleção chamada “BLUSH STROKES”. Por que esta coleção é tão polêmica? 

“Porque o tema da coleção “ BLUSH STROKES” é sexo. No meio artístico existe ainda um certo preconceito com relação a este tema. Alguns pintam o nu artístico. Mas principalmente os mais famosos evitam realizar pinturas de pessoas fazendo amor, ou seja, eles evitam o tema com relação aos ato sexual em si. Como artista, compreendo que a arte deve transcender os preconceitos morais, assim tenho arriscado a fama que construí durante os quarenta anos de minha carreira para preencher uma lacuna que é expressar a estética do que julgo um dos momentos sublimes da natureza humana.
Para isso desenvolvi uma técnica monocromática, com traços simples, numa concepção abstrata, seguindo exatamente a concepção estética da arte do Ving Tsun.”

Porque o nome “blush Strokes”? 

“Blush Strokes” é um tracadilho de “Brush Strokes”. “ Blush”, em inglês, é quando alguém se sente envergonhado e acaba ficando enrubescido. Fato que muito ocorre quando falamos de sexo. E também muito similar a “Brush” que, em inglês quer pincel.
Quando a “Stroke”, em inglês, pode significar tanto um movimento de quando fazemos amor como também um traçado realizado pelo pincel. Assim, o nome conjuga o tema com a técnica. O tema “Blush Strokes “ pode ser traduzido como “ o enrubescimento ao ver duas pessoas fazendo amor”, enquanto que a técnica usada é “ Brush Strokes”, ou seja, a técnica de traços simples. Sem duvida, o nome ideal para veicular minha mensagem”.

Enquanto veículo de perpetuação de uma expressão, qual a diferença entre as artes marciais e as outras artes tradicionais chinesas? 

“Sob esse ponto de vista dizer que de um lado estão aquelas como a Pintura Tradicional chinesa, onde sua expressão fica registrada para posteridade. Mas são estáticas, porque refletem para sempre aquele momento especial que ao mudar o contexto pode deixar de ser especial.
Mas mesmo assim, sua obra e a assinatura de seu autor estarão lá para serem vistas e compreendidas pelas gerações futuras.
Do outro lado estão as Artes Marciais e a Ópera chinesa Elas são dinâmicas, pois podem ser transformadas a cada contexto. Contudo, sua expressão não pode ser capturada a não ser pela mente humana. Aquele momento de brilhantismo, onde anos de pratica intensa podem registrá-los, pois não captaria a magia daquele momento. Somente através da transmissão pura dos sentimentos é que a arte poderá ser perpetuada. Apenas os verdadeiros discípulos perpetuarão a arte devidamente. Por este motivo que a china, a escolha de um discípulo é tão séria quanto a escolha de um mestre. E é ai que reside a importância de um sistema tradicional de arte marcial.
São por estas razões que exerci ambas as formas de perpetuação da arte, pois ela se completam.”
Já que citou a Caligrafia Tradicional Chinesa, qual a sua opinião a respeito da popularidade desta arte? 

“ Para desenvolver seu senso artístico através da caligrafia é necessário muito estudo e dedicação.
Harmonizar traços curós com traços longos ou ainda finos com traços grossos é tão difícil quanto decidir o tamanho de cada ideograma em seu conjunto.
Esta percepção estética é só possível através de grande exercício mental , o que atrai pessoas que desejam utilizar suas mentes de uma forma mais completa.”
Com Hong Kong voltando a pertencer á Republica Popular da China em 1997, muitas famílias tradicionais chinesas estão deixando a cidade, emigrando para os Estados Unidos.

O senhor tem sido procurado por muitas dessas famílias para ser tutor de seus filhos, onde estes jovens teriam acesso à cultura tradicional chinesa, através do aprendizado das principais artes tradicionais. Acredita que as antigas artes estão em fase de extinção e não sobreviverão no próximo século?

“Durante muito tempo preocupei-me com o fato de não haver nenhuma pessoa que pudesse preservar as Artes Tradicionais chinesas, em particular o sistema Ving Tsun.
Hoje estou tranqüilo, já que alguns de meus discípulos conseguiram captar a essência da arte, tornando-se mestres da arte. Isto faz com que finalmente as pessoas compreendam que o que transmito é o sistema Ving Tsun e não meu próprio conhecimento.
A essência da arte do Ving Tsun esta em transmiti-lo puro. Talvez por este motivo que pessoas de todo o mundo ainda que esteja ás vésperas da aposentadoria oficial, venham até mim para receber o conhecimento puro da arte do sistema Ving Tsun.
Mesmo que morra, tenho certeza que meus discípulos continuarão a preservar meu legado.”

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